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· 4 min de leitura

Sê grato

A ambição faz-nos crescer. A gratidão lembra-nos do quão longe já chegámos.

  • Reflexão
  • Mindset
  • Perspetiva

Não sei quando nem como aconteceu, mas tenho a sensação de que nos esquecemos de ser gratos.

Vivemos sempre a olhar para o próximo objetivo. A próxima promoção. O próximo carro. A próxima viagem. O próximo salário. A próxima conquista.

E, sem darmos por isso, aquilo que ontem era um sonho transforma-se na nossa nova normalidade.

Damos tudo por garantido.

Talvez seja essa a maior ironia da vida.

O ser humano tem uma capacidade extraordinária de se adaptar. É isso que nos permite ultrapassar momentos difíceis, reconstruir a vida depois de uma perda e continuar a seguir em frente. Mas essa mesma capacidade tem um preço: habituamo-nos demasiado depressa às coisas boas.

  • A casa nova deixa de parecer nova.
  • O carro deixa de cheirar a novo.
  • O emprego pelo qual esperámos meses passa a ser "só mais um trabalho".
  • A relação que fazia o coração acelerar por receber uma simples mensagem transforma-se numa rotina.

E, quando tudo se torna rotina, deixa de parecer um privilégio.


Não quero ser hipócrita.

Acho que devemos querer mais. Devemos crescer, evoluir e procurar uma vida melhor. A ambição é uma das maiores forças que temos.

Mas a ambição sem gratidão transforma qualquer conquista numa satisfação temporária.

Porque assim que alcançamos aquilo que tanto desejávamos, começamos imediatamente a desejar outra coisa.

Vivemos presos na ilusão do "quando".

  • Quando ganhar mais dinheiro.
  • Quando comprar casa.
  • Quando encontrar alguém.
  • Quando perder aqueles cinco quilos.
  • Quando mudar de emprego.
  • Quando...

A felicidade parece estar sempre alguns passos à nossa frente.

E esquecemo-nos de olhar para os passos que já demos.


Há uma versão tua, perdida algures no passado, que daria tudo para viver a vida que tens hoje.

One day you'll look back and realize these were the good old days.

Talvez esse dia ainda não tenha chegado.

Talvez este seja exatamente um desses dias.

O "tu" de há dez anos ficaria provavelmente incrédulo com muitas das coisas que hoje consideras banais.

  • A independência que tens.
  • O salário que recebes.
  • As viagens que fizeste.
  • As pessoas que conheceste.
  • As experiências que viveste.

Aquilo que hoje é apenas "mais um dia" já foi, um dia, exatamente aquilo que sonhavas alcançar.

Por isso, de vez em quando, precisamos de parar.

Olhar para trás.

Subir um pouco acima da nossa própria vida e tentar ver a big picture.

Perceber que muitos dos problemas que hoje ocupam a nossa cabeça eram exatamente aquilo que, há alguns anos, pedíamos para ter.

  • A casa que hoje achamos pequena já foi um sonho.
  • O emprego de que nos queixamos já foi a oportunidade pela qual esperámos.
  • O corpo que criticamos é capaz de fazer coisas que milhões de pessoas dariam tudo para conseguir.
  • A rotina que nos aborrece é um privilégio para quem vive no caos.

O maior privilégio é aquele que deixamos de reconhecer como privilégio.

  • Respirar sem dor.
  • Poder telefonar aos nossos pais.
  • Conseguir caminhar.
  • Abraçar alguém que amamos.

São coisas tão normais que quase nunca pensamos nelas.

Até deixarem de existir.

O problema é que a vida raramente nos avisa quando estamos a viver algo pela última vez.

A gratidão aparece, demasiadas vezes, tarde demais.

O som de uma ambulância incomoda... até parar em frente à tua casa.

O choro de um bebé irrita... até descobrires que não podes ter um.

A louça acumulada cansa... até ao dia em que pões a mesa só para ti.

Ir ao ginásio parece um sacrifício... até ao dia em que o teu corpo já não te permite fazer aquilo que antes parecia tão simples.

Ouvir a mesma história do teu pai pela décima vez é uma seca... até dares tudo para a ouvir apenas mais uma vez.

A verdade é que quase tudo aquilo que hoje ignoramos se transforma, um dia, naquilo de que mais sentimos falta.


E há outra verdade que raramente pensamos.

  • Há alguém, neste preciso momento, a rezar pela saúde que tens.
  • Há alguém que daria tudo por mais um jantar em família.
  • Há alguém que só queria ouvir mais uma vez a voz da pessoa que tu podes abraçar hoje.

Talvez a felicidade nunca tenha estado em ter mais.

Talvez tenha estado, desde o início, em sermos capazes de reconhecer o valor daquilo que já temos antes que a vida nos obrigue a fazê-lo.


Continua a sonhar.

Continua a trabalhar.

Continua a querer mais.

Mas não deixes que a tua próxima meta te roube a capacidade de apreciar o caminho que já percorreste.

Porque a gratidão não existe para diminuir a tua ambição.

Existe para impedir que a tua ambição te impeça de desfrutar daquilo que já conquistaste.

Afinal, a vida tem uma forma curiosa de nos ensinar o valor das coisas.

Primeiro habituamo-nos.

Depois queixamo-nos.

E só quando as perdemos percebemos o quanto significavam.

Talvez a verdadeira sabedoria seja inverter esta ordem.

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