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O lado negro da ambição

O lado menos visível da ambição: quando acreditar que somos capazes de mais nos impede de desfrutar daquilo que já conquistámos.

  • Ambição
  • Mindset
  • Perspetiva
  • Desenvolvimento pessoal
  • Reflexão

A ambição é uma coisa bonita.

É a vontade de construir mais, aprender mais, melhorar, experimentar, chegar mais longe. É aquela voz que, perante algo difícil, não pergunta “será que consigo?”, mas sim “como é que consigo?”.

Grande parte das coisas extraordinárias que existem nasceu dessa vontade.

O problema não está em querer mais.

O problema começa quando mais deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade.

Porque existe um lado menos visível de ser uma pessoa ambiciosa, competente e habituada a conseguir aquilo a que se propõe: a dificuldade em sentir que alguma coisa é, de facto, suficiente.


Quando o sucesso se torna o mínimo

Existe uma espécie de curse of competence de que raramente se fala.

Curse of competence: if you're good at things, and have high standards, you assume you'll always do well. Which means success isn't a cause for celebration, but is the minimum level of reasonable performance. Anything less than victory would be a failure, and victory itself becomes nothing more than acceptable.

Se conseguimos algo difícil, não pensamos “isto foi extraordinário”.

Pensamos:

“Era suposto conseguir.”

E aquilo que para outra pessoa seria uma conquista enorme torna-se, para nós, apenas o resultado esperado.

A fasquia sobe.

E nós subimos com ela.


O problema do próximo objetivo

Conseguimos o emprego.

Depois queremos a promoção.

Conseguimos a promoção.

Depois queremos mais responsabilidade.

Construímos alguma coisa de que nos orgulhamos.

E pouco depois já estamos a pensar no que vem a seguir.

Não há nada de errado com isto. Esta capacidade de continuar a avançar é uma das maiores forças de uma pessoa ambiciosa.

Mas existe uma pergunta desconfortável escondida aqui:

E se nunca chegar o momento em que nos sentimos verdadeiramente realizados?

Porque podemos passar anos a viver com a promessa de que a próxima conquista será aquela que finalmente nos fará sentir que chegámos.

Quando chegar aquele objetivo.

Quando atingir aquele nível.

Quando conseguir aquilo.

E depois chegamos.

Durante algum tempo sentimos orgulho. Satisfação. Talvez até felicidade.

Mas o cérebro habitua-se.

A conquista torna-se normal.

E aparece o próximo objetivo.

É como subir uma montanha e, assim que chegamos ao topo, descobrir outra ainda maior à nossa frente.

O problema não é haver outra montanha.

É nunca olharmos para trás para perceber até onde já subimos.

Porque quanto mais capazes nos tornamos, mais alto fica aquilo que esperamos de nós.

Podemos estar a viver uma vida objetivamente cada vez melhor e, ainda assim, sentir que estamos sempre atrasados.

Não porque estejamos a falhar.

Mas porque o ponto de referência deixou de ser aquilo que éramos e passou a ser aquilo que ainda podemos ser.


“Eu consigo mais” não é o mesmo que “isto não é suficiente”

Talvez esta seja uma das distinções mais importantes.

Há uma enorme diferença entre acreditar:

“Sou capaz de mais.”

e acreditar:

“O que já fiz não é suficiente.”

A primeira é ambição.

A segunda pode tornar-se uma prisão.

Podemos querer ganhar mais sem achar que o que temos é pouco.

Podemos querer ser melhores sem considerar insuficiente quem somos hoje.

Podemos querer chegar mais longe sem sentir que o lugar onde estamos é um fracasso.

Porque uma coisa é querer descobrir até onde conseguimos chegar.

Outra é precisar de chegar a algum lugar para finalmente nos sentirmos bem connosco próprios.


O combustível da ambição

Talvez seja por isso que vale a pena perguntar de onde vem a nossa ambição.

Há uma diferença entre correr em direção a alguma coisa e correr para fugir de alguma coisa.

Podemos trabalhar porque gostamos de construir.

Estudar porque gostamos de aprender.

Criar porque gostamos do processo.

Ou podemos fazer tudo isso porque, algures dentro de nós, existe a sensação de que, se pararmos, talvez descubramos que não somos tão bons quanto pensávamos.

Por fora, os dois podem parecer exatamente iguais.

A mesma disciplina.

A mesma fome.

Os mesmos resultados.

Mas por dentro são experiências completamente diferentes.

Uma nasce da curiosidade, do prazer, da excelência.

A outra nasce da necessidade de provar alguma coisa.

E talvez o objetivo não seja eliminar essa fome.

É aprender a perceber o que estamos realmente a tentar alimentar.


O paradoxo do overachiever

Há uma coisa curiosa em pessoas extremamente ambiciosas.

Podem ter uma confiança enorme no próprio potencial e, simultaneamente, nunca sentir que fizeram o suficiente.

Podem pensar:

“Sei que consigo mais.”

E essa frase pode ser simultaneamente uma bênção e uma maldição.

É o que nos faz tentar aquilo que outros nem tentariam.

É também aquilo que pode tornar impossível sentir que chegámos.

Porque se acreditamos genuinamente que somos capazes de mais, haverá sempre mais.

E então surge uma pergunta para a qual talvez não exista uma resposta simples:

Se nunca deixarmos de ser capazes de mais, como sabemos quando é suficiente?

Talvez não saibamos.

Talvez a vida de uma pessoa ambiciosa seja sempre marcada por essa tensão.

Um lado diz:

“Já fizeste muito. Aproveita.”

O outro responde:

“Ainda podemos fazer muito mais.”

E talvez não seja necessário escolher.

Podemos sentir orgulho pelo caminho percorrido e continuar com fome pelo que vem a seguir.

Podemos olhar para aquilo que somos hoje e pensar “isto é bom”, enquanto outra parte de nós continua a dizer “vamos ver até onde conseguimos levar isto.”

A ambição não precisa de desaparecer.

Só não pode ser a única forma que temos de nos sentir bem.

Porque talvez a verdadeira vitória não seja chegar a um ponto onde já não queremos mais.

Talvez seja conseguir querer mais sem precisar de mais para sentir que já temos o suficiente.

E talvez, de vez em quando, seja preciso parar de subir.

Não para desistir da montanha.

Mas simplesmente para olhar para trás.

E perceber que já subimos muito mais do que alguma vez imaginámos.

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