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· 4 min de leitura

Socialismo, Realidade e Jogar o Jogo

Vivendo em Portugal, estou constantemente exposto a ideias políticas mais à esquerda e a discussões sobre justiça e desigualdade. Com o tempo, comecei a questionar até que ponto essa visão funciona realmente no mundo real. Este texto é uma reflexão sobre a diferença entre idealismo e realidade, e sobre as diferentes formas como as pessoas lidam com o sistema em que vivemos. Desde lutar contra ele, a reclamar, até aceitá-lo e aprender a jogar o jogo.

  • Filosofia
  • Política
  • Mentalidade

Índice

Ultimamente tenho pensado mais sobre política, não no sentido de discutir na internet ou defender “lados”, mas numa perspetiva mais prática: como é que uma pessoa deve viver no mundo como ele realmente é?

Vivendo em Portugal, estás constantemente rodeado por ideias políticas que tendem para a esquerda. Faz parte da cultura, da história e do discurso do dia-a-dia. E apesar de perceber de onde vêm muitas dessas ideias, cheguei a uma conclusão que pode parecer dura:

Acho que o socialismo, pelo menos na forma como é normalmente idealizado, não funciona na realidade.


Uma forma simples de pensar sobre isto

Imagina que a vida é um jogo.

Não é um jogo justo. Não é equilibrado. Não foi desenhado para que toda a gente ganhe da mesma forma.

É só… um jogo.

Algumas pessoas começam à frente. Outras têm sorte. Outras ficam para trás logo no início. As regras não são perfeitas — e nunca vão ser.

Perante isto, existem normalmente duas formas de reagir:

  • Um grupo olha para o jogo e diz: “Isto é injusto. Temos de redesenhar o sistema para que todos tenham resultados iguais.”
  • Outro grupo diz: “O jogo não é justo, mas é o único que existe. Aprende as regras e joga o melhor possível.”

Para mim, esta é a diferença fundamental entre esquerda e direita.


Idealismo vs Realidade

A esquerda, de forma geral, parece operar a partir de uma visão idealizada do mundo, um mundo onde a justiça pode ser garantida, onde a desigualdade pode ser eliminada, e onde o sistema pode ser redesenhado para algo próximo de perfeito.

O problema é que esse mundo não existe.

Não porque as pessoas não o queiram, mas porque a natureza humana, os incentivos e a complexidade tornam isso praticamente impossível. Sempre que se tenta “corrigir” o sistema em grande escala, acabam por surgir novos problemas — muitas vezes piores do que os anteriores.

A direita, por outro lado, parte normalmente de um pressuposto diferente:

O mundo é imperfeito. As pessoas são imperfeitas. Os sistemas serão sempre imperfeitos.

E por isso, em vez de tentar construir uma utopia, o foco está em lidar com a realidade. Perceber incentivos, aceitar trade-offs e tirar o melhor partido do que existe.


Três formas de viver neste sistema

De forma prática, vejo três maneiras de viver num mundo capitalista:

1. Lutar contra o sistema

Podes dedicar a tua vida a tentar mudar completamente o sistema: lutar contra o capitalismo, contra a desigualdade, contra tudo o que consideras errado.

O problema é que este sistema está profundamente enraizado. Gera poder, riqueza e influência a uma escala enorme, o que o torna extremamente difícil de desmontar.

A maior parte das pessoas que seguem este caminho acaba frustrada, exausta ou desiludida.


2. Reclamar do sistema

Este é provavelmente o caminho mais comum.

Reconheces os problemas. Fala-se deles. Critica-se o sistema. Sente-se a injustiça.

Mas não há ação real... nem para mudar a própria situação, nem para provocar mudança concreta.

O resultado é um estado constante de frustração: consciência dos problemas, mas pouca ou nenhuma capacidade (ou vontade) de agir.


3. Aceitar o sistema e jogar o jogo

Este é o caminho que, para mim, faz mais sentido.

Não porque o sistema seja perfeito, porque não é, nem de perto nem de longe.

Mas porque é o sistema que existe.

Em vez de lutar contra a realidade, aceitas. Percebes como o jogo funciona. Entendes incentivos, dinheiro, oportunidades. E posicionas-te da melhor forma possível para tirar partido disso.

Não é uma questão de aceitação passiva, mas sim aceitação estratégica para poder levar o melhor da curta vida que temos.


Uma nota sobre justiça

Nada disto significa ignorar injustiças ou fingir que está tudo bem.

Existem problemas reais. Desigualdade real. Falhas reais.

Mas há uma diferença entre reconhecer isso e acreditar que é possível redesenhar completamente o sistema para algo perfeito.

Uma coisa é estar ancorado na realidade.

A outra é viver numa fantasia.


Pensamento final

Isto faz-me lembrar muito o estoicismo.

Não controlas o sistema.

Não controlas as condições de partida.

Não controlas as regras do jogo.

Mas controlas como o jogas.

E talvez isso seja a única coisa que realmente importa.

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